sexta-feira, 1 de maio de 2015

Devaneios 01


Quinta- feira nublada. Ela andava rápido para que a chuva não a alcançasse. Deu bom dia ao recepcionista, pegou um jornal na bancada, comprou uma barra de cereal na cantina e subiu as escadas correndo para a aula de "Ética". Não estava atrasada, ao contrário gostava de chegar um pouco mais cedo para poder respirar melhor e limpar o suor da caminhada.



Foi ao banheiro, conferiu o cabelo e sentou no hall do andar, próximo a sala. Mordeu a barra de cereal e o gosto familiar explodiu na boca. Morando e chocolate branco. Abriu um jornal e começou a folheá-lo sem intenção de ler-lo naquele instante. Apenas uma atitude de quem busca algo para fazer enquanto espera ou de quem quer evitar conversar - apesar de saber que a chance de ter uma conversa ali não era muito grande. 

Passou a folha, outra mordida, olhou o celular e notou que ainda faltavam trinta minutos e que os outros alunos por não morarem perto o suficiente ainda não haviam chegado, ou estariam no térreo socializando. Deu-se cota que a segunda opção era mais próxima da realidade. Arfou. Pensou em descer e tentar socializar como os outros, guardou o jornal na mochila, mordeu mais um pedaço da barra de cereal levantou e como um gesto involuntário sentou-se de novo e voltou a olhar o horário. 

Passaram-se dois minutos. Pegou o jornal de volta na mochila, agora um pouco amassado o folheou novamente. As páginas eram brancas com padrões verdes desfocados ao fundo. Contava com o brasão da Faculdade de Medicina da Bahia nas páginas. Olhou as matérias sobre o movimento estudantil, sobre os avanços acadêmicos, sobre ética médica em questão e sobre a causa gay. Levantou a sobrancelha. Não lembrava de ter visto algo parecido nas edições anteriores, se bem que a coluna sobre medicina comportamental ou medicina do cotidiano sempre estava presente. 

Se concertou no banco. Mordeu o último pedaço da barra de cereal e começou a ler. O texto era muito bem escrito e falava sobre a homofobia e os problemas psicológicos e psiquiátricos que ela causava, além de uma análise estatística da procura de atendimentos de emergência devido a situações, nas quais os indignados com a agressão moral que o amor alheio representa agridem as vitimas da sociedade da cabeça fechada. 

Franziu o queixo.  Concordou com tudo que ali estava escrito e foi além. Achou que deveria ser discutido melhor no âmbito da faculdade sobre a homossexualidade. Já havia visto um colega ser descriminado na aula de anatomia, por ser gay e precisar responder perguntas sobre o órgão reprodutor masculino. Imbecilidade. Dai lembrou por que não havia descido para socializar. 

Enfim a aula começou. Sentou-se na segunda cadeira no centro da sala. Não havia muitas expectativas para aquela aula. Eram conceitos e discussões sobre ética médica aplicada à situações que são mais recorrentes do que se imagina. Transfusão de sangue em pacientes com determinadas religiões, óvulos fecundados in vitro e pesquisa com células tronco renderam discussões intermináveis. O semestre ainda estava na metade e ela não sabia que aguentaria ouvir mais pessoas que se preocupam mais com a vida dos outros do que em manter a língua dentro da boca. 

Enquanto a professora ligava o projetor conversou com alguns poucos que sentaram próximos. Deu bom dia a outros. Entregou uma apostila que havia xerocado de um garoto no fundo da sala. Ninguém sabia sobre seus reais pensamentos. Ela sempre andava com um sembrante  sério, tímido, determinado e forçadamente ou não risonho. Sentou-se novamente na cadeira, pegou o caderno e colocou em cima da mesa. A professora ainda não havia conseguido ligar o projetor. O professor ouvinte já estava na sala. A professora na realidade era uma aluna de mestrado e ele deveria ser seu orientador que a avaliava durante as aulas. Raramente esse senhor careca, com a face simpática e caída do tempo. Era alto e parecia ser mais alto ainda por ser magro. Camisa de tecido e social. Calças de linho e com a cintura alta marcada com um cinto. No bolso da camisa duas canetas e um broche, o qual não sabia o que significava. A professora era loira com a raiz por fazer, baixa e parecia mais baixa ao lado de seu orientador. Levava roupas típicas de quem quer passar credibilidade quando não possui muita confiança no que faz.

A aula foi projetada no quadro. Homossexualidade e o erro do diagnóstico médico. A professora tomou um pequeno gole de sua garrafa, o orientador sentou-se no fundo da sala e ela ,enfim, começou a direcionar a discussão do dia. direcionou a pergunta a uma garota no fundo da sala. Cabelo curto  a cima do ombro, magra, bonita e cheia de opinião. Ela prontamente respondeu: que era uma forma diferente de relacionamento físico e psicológico entre duas pessoas. 

A discussão começou com um nível bom o suficiente para que Marí  deixar de julgar o que as pessoas falavam e apenas ouvi-las. Quando virou-se para o caderno para anotar uma frase de Focault, viu sentado encostado na parede da sala um colega,o que havia sido alvo de risinhos na aula de anatomia, meio constrangido e talvez envergonhado. Tentava não fazer contato visual com os presentes, mas mostrava-se ali para não virar o novo alvo da professora sem carisma que precisava "obrigar" os alunos a falar. 

A discussão fluiu, após altos e baixos entre consciência e preconceito enrustido. A temática havia se desdobrado e a análise clinica do passado, no qual homossexuais eram tratados com choque, tornou-se mais presente com as diferenças e subdivisões atuais. Até que a palavra foi dirigida a Samuel  Antonhy Smith, o garoto no canto da sala. Risinhos ao fundo. ]ele respondeu prontamente ao que lhe foi perguntado, mas houve uma contra argumentação. Mari, em sua cabeça repleta de manias de perseguição enxergou um ataque ali. Uma ofensa. E então começou a falar. 

Tomou a palavra para si pela décima vez na tarde e respondeu ao comentário desnecessário sobre a "normalidade" dos cis, trans, gays, pans e afins... Respondeu com o que precisava ser dito e não percebeu que havia falado tanto. Falou muito e bem.  A professora sentiu o tom de arremate em sua voz deu continuidade a sua apresentação de slides. A tarde seguiu sem mais participações polemicas.  
Mari ficou com o estomago vazio, as pernas tremiam e as mãos não copiavam tão bem quanto antes. Não havia percebido seu tom e temeu por parecer rígida de mais, acontece que ela convivia com pessoas que ela julgava não serem parecidas com ela. Não pertenciam ao mesmo mundo. Não tinham a mesma idade, psicológica principalmente. A aula acabou e ela demorou um pouco para se levantar arrumou as coisas na bolsa com cuidado, não por se importar com isso mas para dar tempo dos colegas saírem da sala.

Levantou-se e foi em direção a porta, passou por Samuel que a olhava com interesse, mas não trocaram uma palavra legitima. Ela apenas disse "tchau" e ele respondeu com prontidão. Ele tinha apele branca, barba bem feita, cabelos ondulados e cortados com um topete. E tinha também os olhos mais azuis que ela já havia visto. 

Subiu as escadas e foi à biblioteca. Sua grade estava bem bagunçada. Enquanto subia as escadas lembrou das duas faculdades que havia começado e desistido antes de fazer medicina. Horário totalmente diurno, prático e com a metade da sua carga horária atual. Arfou e agradeceu por estar onde estava. Sentou em uma cadeira próxima a janela da biblioteca e começou a estudar a matéria da aula seguinte:  bioquímica médica I. Tinha uma hora de intervalo entre as aulas e ao contrário dos outros havia decidido estudar. Com certeza a cantina estaria cheia novamente, de conversas altas, grupos formados, Iphones ligados e de sucos naturais sendo feitos na hora.
Lembrou do jornal. Leu a matéria novamente e escreveu uma resposta à matéria de próprio punho, inclusive. 

Não conseguiu estudar. Foi para aula uma hora depois e a assistiu passivamente. Encontrou com Samuel lá também e sentou próximo a ele, mas não interagiram. Nessa aula haviam mais pessoas familiares. Duas meninas que haviam feito outra faculdade anteriormente, uma enfermeira que fazia medicina por realização. Um rapaz de bermuda e camisa divertida. O único que ousava ir de bermuda para faculdade, e era assim que ela o chamava. Ele era naturalmente engraçado e simpático. Seu nome era Diogo e tinha entradas no cabelo, mesmo sendo jovem. Tinha uma barba por fazer e a segurança de quem não se importa com a opinião alheia. Era a pessoa com quem Mari realmente conversava. Xerocava os cadernos dele e ele os dela. Estudavam juntos todas as terças e quintas e mantinham um certo contato (apenas acadêmico) fora da faculdade. 

Ela sentou ao lado do Samuel e atrás do Diogo. Conversavam enquanto o professor brigava  com o projetor. Coisas diversas, normalmente sobre a estampa da camisa dele que sempre eram temáticas. E a aula terminou e o horário da sua próxima aula só chegaria em 2 horas. Se reuniu com a meia duzia de pessoas familiares e sentaram para almoçar. Conversaram sobre a faculdade. Sobre a chuva. Sobre tudo e sobre nada. 

Depois de esperas e das aulas terminadas, passou no terceiro andar da faculdade. Ao lado do segundo elevador ficava a direção do jornal que havia lido e respondido pela manhã. A porta fechada com um cadeado apontava para uma caixa de acrílico vazia ao seu lado. Depositou sua carta lá e foi para casa. 

     
  

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário